Os mercados acionários globais precisarão sofrer antes de esboçar uma reação no fim de 2023, afirma Dubravko Lakos-Bujas, estrategista-chefe global de ações e chefe de pesquisa para América Latina do J.P. Morgan, em entrevista ao Valor. O executivo entende que a possível revisão nas previsões de lucros das empresas, principalmente nos Estados Unidos, juntamente com um ambiente de juros mais elevados – o que é positivo para o mercado de renda fixa -, devem ser obstáculos pelo menos até o Federal Reserve (Fed) indicar uma reversão do seu ciclo de aperto monetário.

Apesar disso, os estrategistas do J.P. Morgan comandados por Lakos-Bujas seguem demonstrando visão positiva para o mercado brasileiro. Agora, diz, não se trata de oportunidade setorial ou de curto prazo, e sim um possível movimento estrutural. “O investidor estrangeiro costumava pensar no Brasil exclusivamente através de temas específicos, como foi com o setor de pagamentos. Desta vez, o interesse é muito mais amplo, principalmente quando se avalia os ciclos das commodities, do dólar e da inflação”, diz.

‘Estrangeiro pode mover o mercado brasileiro’
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Valor: Como o sr. vê o atual momento do mercado? Dubravko Lakos-Bujas: Estamos passando por um período único. Saímos de um ambiente com políticas relaxadas e inundado de liquidez, o que essencialmente resultou em vários tipos de bolhas em ativos de ‘long duration’ ou ações de hipercrescimento. É o caso do mercado de cripto, de ativos ESG ou ações do setor de inovação. O foco era aumentar a receita sem se importar com a lucratividade, porque o custo de capital era zero. O cenário mudou significativamente ao longo dos últimos 12 meses. O juro real dos EUA subiu basicamente 5 pontos percentuais e esperamos que provavelmente suba mais 1 ponto até o final do primeiro trimestre de 2023. Isso tem enormes implicações para essas bolhas de ativos, que foram esvaziadas e desfeitas por vários motivos. Pensamos que a maior parte provavelmente ficou para trás, mas não tudo.

Valor: Existe espaço para um rali de fim de ano em 2022?  Lakos-Bujas: Não, e eu diria que o mercado está se aproximando de um nível em que começa a pisar em ovos. O múltiplo do índice S&P 500 está esticado e acabamos de revisar as estimativas de lucro das empresas para baixo. Com os juros se mantendo estruturalmente mais altos, temos um mercado caro. Para justificar o múltiplo atual, basicamente precisaríamos obter evidências de que o Fed irá reverter seu ciclo aperto imediatamente. Então, sinto que o mercado está se precipitando.

Valor: Para quando espera um movimento de revisão dos lucros das empresas americanas? Lakos-Bujas: Pode ser já agora no início da temporada de resultados do quarto trimestre, que vai começar na segunda quinzena de janeiro nos EUA. O consenso de lucro por ação do S&P 500 ainda é de US$ 231 para 2023 e achamos que o número mais apropriado seja US$ 205, por conta de um movimento de compressão de margens. 2022 foi um ano de resiliência, mas acredito que isso não se sustenta. As famílias americanas, que são basicamente o pilar central da economia dos Estados Unidos, tinham uma poupança acumulada de US$ 2,2 trilhões um ano atrás, muito por conta dos estímulos. Esse valor caiu pela metade e, se extrapolarmos a tendência dos últimos seis meses, esse número será zero ou negativo até o final do próximo ano. Ademais, a taxa de poupança das famílias está em mínimas históricas. A população não está economizando dinheiro e as linhas de crédito estão menos acessíveis porque o custo do capital aumentou. Então, o consumidor americano começa a ser espremido por todos os lados e, quando isso acontecer, teremos uma retração no consumo e nos gastos discricionários. E do lado corporativo, o poder de precificação, que foi forte este ano, começa a decair, o que também puxa as margens para baixo, a despeito do consenso apontar para uma alta.

Valor: O que isso representa para o mercado acionário nos primeiros meses de 2023? Lakos-Bujas: Eu diria que o primeiro semestre de 2023 tende a ser negativo para ações nos EUA, especialmente considerando os ganhos recentes. Internacionalmente a situação é melhor, mas os ativos americanos estão caros. Assim, pensando no próximo ano, eu diria que títulos de renda fixa parecem extremamente atraentes. Dito isso, quando pensamos em fluxo e posicionamento em ações, sabemos que já houve queda relevante, mas o investidor de varejo americano, que continua exposto acima da sua média histórica à modalidade, pode facilmente intensificar o movimento vendedor. As ações não tiveram concorrência em 2022 porque a renda fixa estava sendo aniquilada. Em 2023, essa concorrência volta.

Valor: O J.P. Morgan enxerga um ponto de entrada no segundo semestre de 2023, certo? Lakos-Bujas: Eu diria que sim, a depender do Fed. Nossa projeção é que o S&P termine 2023 em 4.200 pontos, o que é basicamente um mercado estável, com leve tendência de alta e muita volatilidade. A inflação que temos agora demanda tempo para baixar, já que houve choques de preços de vários ângulos diferentes ao longo dos últimos 24, 36 meses. Alguns aspectos foram impulsionados pela flexibilização dos bancos centrais, o que pode ser revertido pelas próprias autarquias. Mas existem outras questões, relacionadas à cadeia de suprimentos e ao mercado de trabalho, em que não há muito que o Fed possa fazer além de esperar. Isso para não falar de questões energéticas e geopolíticas, que também não estão sob o controle dos BCs.

Valor: A reabertura da China pode ajudar o mercado? Lakos-Bujas: A China importa. É verdade que vemos o país passando por uma desaceleração estrutural, mas a flexibilização dos lockdowns e a reabertura do comércio podem atuar como um estímulo para a economia chinesa, para o consumo, para a mobilidade e talvez também possam ajudar, em algum grau, seus parceiros comerciais mais próximos, como a Europa, o Brasil e certas partes do sudeste asiático. Não acho que o caminho de reabertura seja linear de forma alguma. Vai enfrentar muitas idas e vindas como foi no restante do mundo. Apesar disso, a China será uma história positiva para o próximo ano, e o J.P. Morgan enxerga aumento do PIB chinês de cerca de 2,9% em 2022 para 4% em 2023.

Valor: A reabertura da China pode tirar espaço do Brasil nas teses de investidores globais em mercados emergentes? Lakos-Bujas: O problema da China é que grandes investidores tomaram a decisão de não investir diretamente lá por questões geopolíticas. Então, acho que podemos ver dinheiro rápido entrando, mas, em termos de longo prazo, acredito que seja um pouco mais difícil. Para o Brasil, por outro lado, é possível fazer uma narrativa tática [de curto prazo], mas também é possível pensar estrategicamente [no longo prazo]. O ponto mais encorajador é em relação ao investidor estrangeiro, que tem muito capital e pode realmente mover o mercado. Esse grupo costumava pensar no Brasil exclusivamente em temas específicos, mas agora o interesse é muito mais amplo, se tratando de uma tese, principalmente quando se avalia os ciclos das commodities, do dólar e da inflação. Sim, ainda pode haver dificuldades do lado fiscal, mas há um apelo mais amplo agora. Eu vejo isso como um grande ponto positivo e é uma nova tendência. Além disso, em um ambiente de desglobalização e tensões contínuas entre os EUA e a China, há espaço para que a América Latina, Brasil, México, desempenhem papel muito maior. É uma oportunidade única para agirem juntos e dizerem ‘estamos aqui e queremos participar’.

Valor: Quais setores da bolsa local podem se destacar em 2023? Lakos-Bujas: Gostamos do tema de energia globalmente. Achamos que o cenário de médio prazo permanece excepcionalmente otimista devido ao que acreditamos ser uma demanda relativamente resiliente enquanto, do lado da oferta, muito pouco ou nada está sendo feito para resolver os desequilíbrios e a falta crônica de investimento em petróleo e gás. O Brasil está no centro desse tema, mas dizem que a Petrobras tem problemas de regulamentação. Existem, no entanto, empresas de capitalização menor ou até privadas que não serão afetadas por esse tipo de regulamentação. E isso é algo para se pensar em um horizonte de 3, 5 anos. Então, gostamos de energia e de certas partes do setor de materiais também. Além disso, dado o patamar atual dos juros, é possível pensar em setores que consigam capturar isso de alguma forma, como ‘utilities’. Gostamos da tese nos EUA e acredito que também faça sentido no Brasil.

Valor: E qual é a sua visão para o setor financeiro local? Há espaço para mais quedas? Lakos-Bujas: Trata-se de um fenômeno global. Assim como no Brasil, está acontecendo na Europa, Ássia, China e Estados Unidos, incluindo bancos maiores como o J.P. Morgan, que foram orientados pelos reguladores a resguardar mais recursos. Os bancos foram provavelmente uma das primeiras partes das empresas cíclicas a sentir a crise, pois o mercado começou a precificar o risco crescente de uma recessão. Então, enquanto a desaceleração ou recessão global parecer mais branda, já houve uma reprecificação. Acredito que a questão piora se a inflação for persistente e os bancos centrais precisarem apertar ainda mais. O custo do capital vai aumentar e isso realmente acabará induzindo uma recessão muito mais severa, o que pode gerar impacto extra no setor.

Valor: Setorialmente, como enxerga o posicionamento global em ações se desenvolvendo em 2023? Lakos-Bujas: Nossa preferência ainda é, em termos gerais, por ativos baratos. Entre os defensivos, a busca é por qualidade a preço razoável, com ‘healthcare’ e ‘utilites’ em destaque. Bens de consumo é o segmento que eu menos gosto, porque considero extremamente caro e até diria que, em termos absolutos, está em uma bolha. Você tem empresas que basicamente cresceram sem receita e as margens continuam expandindo. Eles não só ampliam as margens pelo aumento dos custos dos insumos, mas além disso. Agora a questão é quanto tempo isso dura e não acho que vá durar mais de três a seis meses. Em relação a setores cíclicos, temos preferência por energia e financeiro, em detrimento de industriais e bens de consumo discricionários. E, entre os papéis de crescimento, procuramos empresas de qualidade, com balanços, fluxo de caixa e crescimento robusto, e que já passaram por correção.

Valor: Podemos esperar mais volatilidade em 2023? Lakos-Bujas: Não acho que estamos fora de perigo e nossa estimativa é de que o índice VIX atinja uma média de 25 em 2023. Ele permanecerá elevado porque as condições monetárias provavelmente permanecerão apertadas. Poucas pessoas dão atenção ao aperto quantitativo do Fed, que tem ajudado a controlar a volatilidade, mas pode começar a perder força no ano que vem. Junto com isso, precisamos olhar para os fundamentos, o lucro das empresas. Se eles começarem a ser revisados para baixo, isso também não é um bom presságioleia mais em Inteligência Financeira 12/12/202